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Relação Homem x Animal – Aspectos Psicológicos e Comportamentais

Ao deter-se com a cena em que uma criança ou um adulto brinca com um cão, naturalmente não imaginamos que houve um tempo necessário para que a cauda dos ancestrais desse animal recebesse um impulso nervoso enviado por seu cérebro e apresentasse um movimento oscilatório, uma reconhecida manifestação por seu prazer por estar junto de seu líder tribal, como assim explicam alguns etologistas, a proximidade entre cães e humanos. Assim, tal cena é produto de um processo de aproximação entre esses representantes de espécies diferentes, separadas por um grande salto na escala filogenética.
Desde que o animal foi domado, amansado, para depois ser domesticado, sua interação com o ser humano foi mudando. E, naturalmente, a relação da família com seu animal também tem mudado. Atualmente, eles passaram a ser considerados pelas famílias que os adotam como um “integrante” do grupo – e ver-se-á que é assim mesmo que eles se sentem, segundo a etologia. É notório como aumenta o número de lares que incorporam como co-habitantes seres de outras espécies que não a humana: cães, gatos, iguanas, hamstes, pássaros, peixes, serpentes, entre outros.
Pessoas idosas são cada vez mais desejosas de possuírem animais que possam lhes servir de companhia. Cães e gatos são como que uma terapia para problemas de solidão. As pessoas idosas buscam, também, alguém de quem possam cuidar e trocar afeto. As pessoas residentes em casas agregam a segurança e se sentem mais seguras com um cão por perto, buscando a companhia de animais de médio e grande porte. Pelo fato de ficarem mais tempo em suas residências, um animal de estimação ajuda a preencher o tempo, fazendo companhia, além de dar e receber atenção. Pais, especialmente jovens, com filhos em crescimento estão valorizando a posse de cães como parte do relacionamento das crianças com animais e os benefícios propagados por psicólogos e educadores. Há cada vez mais casais jovens buscando possuir animais de estimação. É crescente o número de pessoas, especialmente mulheres, vivendo sozinhas e que fazem dos cães e gatos suas companhias. São pessoas dispostas a direcionar parte de sua renda para garantir a saúde e o bem-estar dos seus pets. Segundo Honey Niehaus, diretora da American Animal Hospital Association, sete entre dez americanos hoje pensam em seus animais de estimação como filhos (Becker, 2002).
O crescimento do mercado pet é confirmado quando se verifica os dados comerciais envolvidos nos segmento. Segundo dados de pesquisas do IBOPE-NPD, estima-se em 31,287 milhões a população de animais de estimação no Brasil, sendo de cães são 22.276 milhões de cães e 9.011 milhões de gatos. Esta matéria também ressalta que 71% das residências tem cão e 17,5% dos lares tem gato. O setor de pet shops vem apresentando um crescimento, em média, de 17% ao ano, desde 1995, segundo a Associação dos revendedores e prestadores de Serviços ao mercado Pet – ASSOFAUNA (Cemignani, 2003). Fuchs (1988) afirmou que o relacionamento entre ser humano e o animal é muito amplo, compreendendo desde pesquisa aplicada, clínica, terapêutica e estudos de comunicação. Já Bergler (1988) ressaltou que as pesquisas continuam a ignorar a relação psicológica entre o homem e o seu animal, no sentido de buscar o significado dos animais para as pessoas e de suas funções psicológicas no cotidiano, preocupando-se em focalizar os aspectos estritamente terapêuticos.
Por outro lado, por mais desculpável que isso possa parecer, assemelhar o cão ao pequeno ser humano é um erro biológico que pode revelar-se perigoso para o animal. Klein (1995) advertiu que a humanização dos animais pode conduzir a uma animalização dos seres humanos, particularmente no âmbito dos assassinatos por um capricho qualquer. Assim, Lorenz (1999) citado por Garber (2000), se coloca contra a idéia de permitir que o amor pelos animais substitua o amor pelos seres humanos, chamando uma tal preferência de eticamente perigosa ou de perigo moral. Conclui que o ser humano que, desiludido e amargurado pela fraqueza dos homens, retira seu amor da humanidade e o deposita sobre cães e gatos, está cometendo um pecado grave, uma repulsiva perversão social.
A discussão é uma oportunidade para encontrar-se o equilíbrio. Se for usar a razão lógica e habilidade para erradicar as doenças, cria-se um ambiente saudável para todas as criaturas. Esse elo vital com o mundo alimenta o espírito, proporciona paixão à nossa vida e nos faz rir. É o vínculo com Deus, com os animais, com a natureza e com as outras pessoas. É a força primordial de uma pessoa feliz e saudável uma das principais armas da sociedade contra a solidão, a apatia e a depressão. Os bichos são como vitaminas que nos fortalecem contra ameaças invisíveis; como cintos de segurança nos protegendo contra os desastres da vida; como sistemas de alarmes proporcionando um sentimento de segurança.
REVISÃO DE LITERATURA

1. Etologia
A etologia nos explica a aproximação entre seres humanos e animais, nas palavras de Bernard & Demaret (1996). Esses autores colocam que, no passado, cães e gatos primordial e especificamente eram mantidos para desempenharem funções práticas. Dessa forma, gatos caçavam ratos; cães caçavam ou rastreavam a caça, até participavam de guerras protegendo as tropas, serviam como guardas, puxavam trenós ou aranhas (espécie de charrete), proporcionavam calor, serviam como alimento, etc. Não havia esse elo como nos dias de hoje; tanto é que no século XVII, quando os cães de guarda e de pastoreio chegavam a uma idade avançada, que já os impedia de desempenharem de forma satisfatória suas funções, eram sacrificados por enforcamento ou afogamento. Esses animais eram sacrificados porque o ser humano ainda não tinha desenvolvido por eles uma consideração como hoje se faz – “considerar” nos sentidos de deter a vista em seres como sendo capazes de poder oferecer trocas afetivas; “conceber”os cães como seres dotados de sentimentos; “julgar” esses animais como simples autômatos.
É curioso notar que, pelo tratamento dispensado hoje, especialmente nas cidades, cães e gatos ganharam status de seres mimados. Por meio da observação caçadores-colhedores conteporâneos, como os aborígenes australianos, os índios amazônicos, pode-se ter conhecimento de que os seres humanos, antes do advento da agricultura, viviam cercados por pequenos animais, especialmente para entretenimento (Bernard & Demaret (1996)).
O fato de, ao nascer, deparar-se com a convivência com animais não nos faz pensar sobre a natureza dessa relação, de modo que a aceitamos como algo tão natural quanto outro fato qualquer do cotidiano. Nesse sentido Digard (1995) citado por Bernard & Demaret (1996) coloca que “… ainda o mais mal compreendido, talvez o aspecto mais interessante dos animais de estimação, seja sem dúvida o seguinte: ao ser permitido tornarem-se amigos próximos de seus donos, esses animais tem sido complemente disponíveis a eles; e não há nenhum outro objetivo senão somente o de ser a companhia de seus donos”.
As motivações individuais bem como as motivações próprias à espécie humana para que alguém mantenha um animal de estimação junto de si destaca-se:
1) um animal pode ser adotado para propiciar a reconstrução de um ambiente familiar para a infância;
2) um animal é um objeto que satisfaz a necessidade de afeto. Atenuam a solidão, dão uma oportunidade para cuidar de alguém mais, fornecer uma ocupação, oferecer contato físico e sinais de afeto, ser sujeito de atenção fornecer um sentimento de segurança, promover exercício físico.
3) um animal pode favorecer contato social e recreação. Trabalhos tem observado que 40% das pessoas que conduzem um animal tem pelo menos uma conversa com alguém encontrado ao longo do trajeto, contra apenas 8% do grupo com bebê e 3% das pessoas desacompanhadas (Fuchs, 1988).
4) Desempenha a função de substituir uma criança. Para seus proprietários, os animais são crianças que nunca crescerão. Bourguignon (1994) citado por Bernard & Demaret, 1996, observou que essa função de substituir crianças por animais é observada em casais com nenhum filho e também em famílias com uma, duas ou muitas crianças, nas quais o animal é conferido o status permanente de criança mais nova. Nesse sentido, um animal de estimação pode servir como um substituto dos filhos que por várias razões não são concebidos.
Portanto, os cães proporcionam, aos seres humanos, um sentimento de uma atmosfera tribal afetuosa, menos presente nos nossos dias, considerado que ainda atua-se como caçadores colhedores. Pode-se dizer que o desejo em descobrir a atmosfera tribal pode ser satisfeito por meio do auxílio dos animais de estimação. Então, ao se introduzir um cão num lar, tem-se uma tribo formada por ele e a família que o acolhe; também o sentimento tribal surge na relação entre um ser humano e seu cão, uma tribo de dois espécimes.
O papel do animal de companhia na família irá depender da estrutura familiar, da força física e emocional, da fragilidade de cada membro da família, das propensões emocionais e do clima social Lantzman, 2004). Classifica em 4 papéis:
1) O paciente identificado: O funcionamento familiar ocorre em função e ao redor do comportamento do animal de estimação. O cão é visto como portador do problema.
2) Facilitador de Homeostase: A relação com o animal de companhia favorece e atua como mecanismo homeostático, operando para restabelecer o equilíbrio familiar
3) O elo de ligação entre os familiares: A relação com o animal de companhia é reconhecida como facilitadora das relações entre os membros da família podendo portanto, atuar como elemento de coesão. Os membros da família podem estabelecer coalizões com o seu cão evitando confrotos diretos
4) Expressão dos conflitos familiares: Favorece a comunicação funcional entre os membros da família. Favorece a comunicação disfuncional desqualificadora e paradoxal
As causas filogenéticas são explicações que podem fornecer uma redução do mistério que envolve a relação homem-animal.

2. Reflexos da domesticação dos animais

O modo de pensar, de sentir, de agir foi se constituindo ao longo da existência do ser humano,, ao ponto de cada um ser chamado hoje de sujeito. Esse processo, denominado de subjetivação, erigiu-se também graças a interação com os animais, numa construção que se arrasta desde a pré-história (Delarissa, 2003).
Ao comparar-se com os animais, o homem toma o reino animal como um ponto de referência; este como sendo uma advertência para no que pode se tornar, caso não consiga dominar seu desejo. Ao volver os olhos para os quadrúpedes, seres alados, anfíbios, seres aquáticos, répteis, enxerga-os como um recurso menemônico para afirmar sua honrosa superioridade.
Por muito tempo, um animal tem sido considerado apenas um animal, segundo as acepções da palavra. No entanto, a cientificidade que permeia o convívio do homem com animais tem se guiado pela psicologia animal, fundamentada na psicologia comportamental. Dessa forma, a relação homem animal foi marcada pelo olhar temeroso em direção ao animal doméstico tão somente enquanto um organismo vivo dependente, subordinado, subserviente ao homem, justamente para assegurar o status quo dos seres componentes da biosfera. Atualmente, o homem inseriu o animal em atividades antes somente dignas de serem executadas por humanos como os únicos capazes. Então, o animal passa a fazer parte de equipes terapêuticas, como co-terapeutas, como por exemplo nas terapias mediadas por animais.
Sobre o início do convívio do homem com o animal, Levinson, (1969) colocou ser impossível demarcar quando o homem começou a domesticar os animais e a usá-los como animais de estimação. Acredita-se desde um período de 8.000-20.000 anos atrás. As evidências de DNA quanto à domesticação sugerem que os cães se originaram há aproximadamente 135.000 anos e que ocorreram retrocruzamentos ocasionais. Foram encontradas evidências de existência de cães na caverna Palegawra, no Iraque, datando de 10.000-12.000 anos atrás. Em Ein Mallaha, no norte de Israel, cientistas escavaram um túmulo que datava de 9.350 – 9.750 anos a.C., que continha restos mortais de um humano idoso, provavelmente uma mulher, e um cãozinho de 3-5 meses de idade (Beaver, 1999). Acredita ser a era glacial – aproximadamente há dez mil anos, como o período em que o homem verdadeiramente começou a interferir no seu ambiente e a destruí-lo. Significativamente, o povo que era, então, mais avançado na modificação do ambiente, os Natufienses da Palestina, que viveram no que é a localização presente de Jericó, tinham domesticado o cachorro e, possivelmente, a cabra a aproximadamente 6300 a.C. A domesticação dos cães selvagens se deu pelo fato de o homem alimentá-los quando eles invadiam a área de seus acampamentos. O mesmo autor acredita que as razões para adoção de animais também podem ser simbióticas e indubitavelmente o cão é o simbionte mais antigo em nossa história. Com isso também se restabelecia o laço com aquela omnisciência inconsciente por nós chamada de natureza e o animal funciona como um instrumento para o retorno desse contato mais próximo.
3. Lugares dos animais na pós modernidade

Hoje pode-se destacar dois lados opostos do posicionamento dos animais com com o homem. Por um lado vemos que aos animais se reserva lugares que podem ser mais ou menos inóspitos ou serem revestidos de certa utilidade, conveniência para a espécie humana – para a qual a existência dos animais se torna enobrecida, valorosa. Dentre os lugares inóspitos, cita-se por exemplo, os matadouros (?), os laboratórios farmacêuticos e universitários que realizam vissecção, testes toxicológicos; os picadeiros de circos; as arenas de touradas; as arenas de rodeios; das armadilhas, passando pelas fazendas de pele até chegar aos ombros de algumas pessoas; o lugar de objetivo a ser traficado; os parques de caça, etc. Por outro lado, existem lugares também desnaturantes – por tirá-los de sua natureza original, como diriam os defensores dos direitos dos animais – mas interessantes ao bem estar da espécie humana, como o ocupado pelos cães guias para deficientes visuais; pelos farejadores de drogas; farejadores de dinheiro nas alfândegas, e de bombas (Kilborn, 2001). Os eqüinos ocupam um lugar salubre na equoterapia e os cães e gatos como co-terapeutas. Ainda vemos os animais das câmeras, ou protagonizando em filmes ou em trabalhos como comerciais, fotos publicitárias, televisão, novelas, vitrinismo, teatro, eventos etc.
Também nas leis os animais de uma forma ou de outra ocupam algum lugar. Declarações, leis em nível federal, estadual e municipal disciplinam e protegem os animais. Mas foi na Alemanha, em 2002, que o animal passou a ocupar um lugar na constituição de um país. A maioria dos congressistas permitiram que a cláusula que coloca como obrigação do Estado proteger a dignidade dos seres humanos fosse adicionado “e animais”. Com todo esse avanço é que encontramos os animais com lugares reservados em várias ONGs (Delarissa, 2003).
Num relacionamento com um animal de estimação, a lealdade está subentendida. Ainda mais se o animal for um cão. Isso aparece em frases proferidas pelos simpatizantes de animais – quem ainda não ouviu que um cão é leal e é “o melhor amigo do homem?”. Parece que há uma garantia implícita de que ao adquirir um cãozinho o proprietário terá lealdade bem como autenticidade. Talvez ter um animal de estimação funcione como uma forma compensatória para a certeza de lealdade e autenticidade nem sempre encontrada de forma satisfatória nas relações com um outro humano. Numa época governada pela incerteza e desconfiança (Baumann, 1998), na relação homem animal existe a certeza que este último é o animal, inferior na escala filogenética, mas capaz de oferecer amor incondicional – fato em que se pode confiar totalmente. Não se olha um animal e espera-se nele encontrar princípios éticos. Contudo, olha-se o “semelhante”, sabendo que nele pode haver esse vazio. E é importante destacar que a relação com o mesmo não precisa ser sustentada à base de roupas de griffe, de coleiras com pedras preciosas incrustadas ou uma tosa num coiffure canino de elite. Basta que apenas o mantenha vivo.

4. O animal de estimação e seus lugares

Recorrendo-se aos registros paleontológicos, defronta-se com o ser humano no estádio em que se caracterizava como predador bem como presa de animais ferozes, especialmente, os mamíferos que vinham se diversificando desde o Eoceno, período terciário, há cerca de 60 milhões de anos.
Na trajetória da evolução da espécie humana, pode-se observar que no início do período pós glaciário, enquanto grupos humanos do velho mundo sobreviviam da caça, da pesca e da coleta, estádio dos predadores no fim do paleolítico, no oriente próximo, outros grupos começavam, num processo lento, a semear, a colher e criar, enquanto a caça, a pesca e a coleta diminuíam progressivamente de importância, processo que mais tarde grupos de outros cantos do planeta começam a adotar. Então, estes últimos grupos caracterizavam-se como sedentários, já não mais nômades. Surgem os mesolíticos, o mais antigo nível é datado em aproximadamente no final do XI milênio a.C. (Leroi-Gourhan et al., 1968).
O período neolítico é caracterizado sobretudo pelo estabelecimento de novas relações entre o homem e o meio natural, deixando de intervir neste de modo destrutivo, tornando-se produtor. Esta nova relação acaba por intervir na seleção natural das espécies animais e vegetais, tendo como intenção a reprodução seletiva daquelas que lhe interessam como suprimento. O homem passa a criar suas fontes de alimento, em que a criação e a agricultura vão substituindo, de certa forma a caça, a pesca e a colheita (Leroi-Gourhan et al., 1968). De acordo com esses autores, os motivos que levaram o homem pré histórico a criar animais se resumem em questões econômicas e de subsistência.
O homem primitivo agia mais por instinto do que pelo desenvolvimento da inteligência, o que o aproximava dos animais. Característica que lhe permitiu conviver mais facilmente com os animais, amansá-los, introduzindo-os na domesticidade (Domingues, 1968).
O psicólgo norte americano Hauser (1999), da Universidade de Harvard, citado por Delarissa (2003) afirmou que os animais também desenvolveram, para sua sobrevivência, habilidades mentais.As barreiras que separam os humanos dos animais estão desmoronando.
Em relação aos animais de estimação, conhecer as razões para se decidir por adquirir um nos dias atuais exige que se faça uma pesquisa com sujeitos que compõe a sociedade. Fuchs (1988) o fez através de uma pesquisa e, dentre elas, cita-se:
– O adulto providencia ou mantém o animal porque acha que a criança terá afeto, companhia distração;
– O adulto providencia animal para ter como desafogar afeto;
– Necessidade de carinho de cachorro;
– Para propiciar companhia;
– Necessitar da compreensão pelo animal, porque há dificuldade de relacionamento com ser humano;
– Para agradar a criança;
– Efeito terapêutico junto a deficiente;
– Evitar sofrimento próprio;
– fuga de uma realidade desagradável;
– Satisfazer desejo que perdura desde a infância (de ter um animal);
– Proteção e segurança em sítio;
– Precisar reassegurar-se para ser mais forte no relacionamento social;
– Ter coisa viva, vida, em casa;
– Promover status – demonstração de ostentação, tendo um enorme cachorro ou um cachorro muito caro;
– Querer observar o animal de pesquisas em casa;
– Usar animal como instrumento pedagógico.

Nota-se como as novas necessidades sociais acabaram por criar outros motivos para aquisição de um animal de estimação. O animal já é um ser que compõe a nossa cultura, chegando a estar presente até nas atividades terapêuticas. À psicologia atual agrega-se a terapia mediada por animais.
O homem trouxe para junto de si os animais. Convidou-os para serem seus coabitantes. Como já quase não há áreas específicas a serem habilitadas exclusivamente por humanos e outras por animais – pois pela domesticação algumas espécies estão entre nós – passando estes a compartilhar de algumas atividades humanas, tanto em áreas urbanas como rurais. Humanos e não humanos incluem ao outro no seu mundo. E essa aproximação se intensifica a medida que a civilização se torna mais angustiada. Pode-se constatar que os animais são pois, seres componentes da cultura – exemplos em que podem-se notar que os animais são coadjuvantes em muitos comportamentos do ser humano, de modo que este crie instituições destinadas a assegurar a subsistência daqueles, a fim de perpetuar essa relação; em que esses seres acabam compondo até mesmo os valores espirituais, simbolizando um avatar, como ocorre no cristianismo ou sendo um animal totêmico, em que acabam representando, muitas vezes, o único ser relacional ou o mais importante para algumas pessoas.
5. O lugar dos cães na arte e na cultura

Como os cães são os animais mais presentes em nossa cultura, tendo o Brasil, por exemplo, a segunda maior “nação canina” do planeta, com cerca de 23 milhões de indivíduos (Kostman, 2003), crê-se ser procedente olharmos o lugar que destinamos a esses seres na arte e na cultura.
Quando o homem, primeiramente, começou a viver junto com os cães, estes últimos indubitavelmente adquiriram uma importância universal no quotidiano da vida humana. Os cães realizavam um número de proveitosas funções, tais como vigiar a casa, os terreiros das fazendas e o gado, participando da caçada e servindo como tração animal para puxar trenós e carroças. Além disso, eles satisfaziam uma variedade de necessidades psicológicas como um companheiro de brincadeiras e companhia para crianças e adultos, participando das suas alegrias, e sem dúvida de seus sofrimentos também (Bergler, 1988).
Paralelamente aos cães cujo lugar era o colo de seus donos, e não conectados com as tendências da moda no apogeu da corte real francesa, as pessoas começavam a criar certos tipos de cães por razões puramente ligadas à moda. Os poodles, por exemplo., passaram a ser os cães da moda no tempo de Louis XVI. Nas primeiras décadas do século XIX, os pugs se tornaram populares na França, enquando na Inglatera o spaniel King Charles era substituído nos círculos da moda pelo Irish Wolfhound. Os collies entrararam na moda na virada do século, para serem seguidos na decida de vinte pelos pequineses, fox terriers e scoth terriers. Então vieram os cocker spaniels, alsatians, poodles novamente, basset hound e yorkshires terriers. Quando a criação sistematizada foi introduzida no século XX, havia uma forte ênfase na criação de cães com características específicas e habilidades para realizar certas funções especializadas (cães de guarda, cães de busca e resgate, cães guia para cegos) (Bergler, 1988).
A parceria natural entre o homem e os animais reconhecida como verdadeira pode ser notada no fato de os cães aparecerem num estádio muito primitivo na literatura. Na obra odisséia, Argus, o resignado cão de Ulisses, foi o único a reconhecer seu dono quando do retorno deste. Nas fábulas de Esopo (600 a.C.), de Fedro (cerca de 15 a.C.-50 d.C.), e de Bário (200 a.C.), o cão é uma figura recorrente. Pode-se ainda mencionar o cão Labes, que figura “As vespas”, de Aristófanes (Bergler, 1988). O mesmo autor, numa referência às atuais manifestações artísticas como gibis e tiras, destaca que o cão ainda persiste em figurar como mera companhia de humanos ou mesmo como personagem principal. Na literatura nacional, Maurício de Souza, em suas criações publicou seus primeiros trabalhos justamente com as tiras do bidu, em 1959, na Folha de São Paulo (Rito, 2003).
Não se pode destacar as inúmeras participações de cães na cinematografia, como os saudosos Rin Tin Tin e Lassie, até os populares Scooby Dôo, A Dama e o Vagabundo e os 101 dálmatas (Garber, 2000).
Com tudo isso faz-se necessário que os cães passem a ser objeto de estudo das ciências sociais empíricas, da psicologia e das terapêuticas. Então, essas ciências poderão valer-se das interpretações literárias e artísticas, que fornecerão uma base valiosa para a pesquisa científica.

6. A terapia mediada por animais

Levinson, (1987) citado por Bergler (1988), relatou que 33% das clínicas psicológicas do Estado de Nova Iorque recorrem a animais de estimação como recursos terapêuticos, sendo os cães os preferidos. Talvez pela sua constante disposição para dar afeto e contato corporal o tempo todo e em todas situações, juntamente com aquela inocente confiança que os cães incansavelmente manifestam para com os humanos. Essa confiança por parte dos cães elicia uma resposta recíproca dos humanos, que são preparados para por sua confiança em um cão e para sentir responsabilidade pelo animal.
Porém, não é fácil receitar o bicho de estimação que melhore sua vida e satisfaça suas necessidades pessoais.
A) Alergias e asma: a alergia a cachorros ou gatos ocorre em cerca de 15 % da população. Quase 30% dos asmáticos são alérgicos a animais peludos, mas muitas pessoas que sofrem de alergia ou asma querem ou precisam de um bicho de estimação. E ao contrário do instinto de muitos pais e da convicção de muitos médicos, os bebês que crescem com gatos ou cachorros podem ter menos probabilidades de alergias e asma num perído posterior da vida, de acordo com as pesquisas preliminares (Becker, 2002). Os pesquisadores dizem que as novas descobertas podem estar de acordo com o que os médicos chamam de “hipótese da higiene”. A teoria sustenta que a asma e as alergias se tornaram cada vez mais comuns durante os últimos 30 anos, à medida que o tamanho da família diminuiu e os padrões de higiene pessoal aumentaram, de tal forma que uma falta de contaminantes ambientais faz com que os sistemas imunológicos tenham uma reação exagerada quando encontram substâncias que produzem alergia ou asma. É importante salientar que para muitos alérgicos, cachorros ou gatos podem ser amigos “apenas suportáveis”. Já para os asmáticos, esses mesmos bichos podem ser uma ameaça à vida. E, para estes existem alternativas “sem pelos e sem plumas”, há répteis, tais como iguanas, cobras, lagartos, salamandras e outros anfíbios. Tartarugas, peixes tropicais e bernardos eremitas também podem tornarem-se grandes bichos de estimação para algumas crianças e adultos. Segundo pesquisadores do Hospital Escola de Long Island, no Brooklyn, em Nova Iorque, os gatos parecem ter uma capacidade maior de desencadear a asma do que os cachorros. Dentre os gatos, os machos soltam mais escamas do que as fêmeas e os gatos de pelagem escura desencadeiam de duas a quatro vezes mais reações alérgicas de severas a moderadas nas pessoas do que os gatos de pelagem clara (Becker, 2002).
B) Envelhecimento: ao contrário de algumas pessoas, os bichos de estimação aceitam incondicionalmente as limitações de uma pessoa. Não se importam com sua aparência ou com o fato de a pessoa não saber mais amarrar os sapatos. Os bichos de estimação podem proporcionar o contato social de que os idosos precisam. Salienta-se porém, que um cachorro ou um gato manso e cordial (de qualquer espécie, de qualquer tamanho) pode servir como mais um instrumento para ajudar os profissionais da área da saúde a melhorar a qualidade de vida dos seus pacientes. Um filhote com dentes afiados não é o animal ideal para idosos nessa situação. A contemplação de peixinhos dourados é uma atividade passiva, mas válida. Também há aves em casas de repouso. Observá-los voar, dentro de enormes viveiros, fazer ninho e se alimentar é muito melhor do que ficar olhando para pessoas na televisão.
C) Artrite: a Fundação de artrite relaciona mais de 100 condições diferentes sob a classificação geral de artrite, da simples dor no cotovelo ou bursite à artrite reumatóide, severa e incapacitante, osteoartrite, fibromialgia e osteoporose. Para essas patologias é importante na seleção do animal o seu tamanho. Passear com um cachorro grande, por exemplo, pode ser um exercício agradável para alguém com artrite, até que o animal aviste algo e dispare, arrastando o braço e o ombro do outro lado da trela. Uma pessoa com ossos frágeis, por causa da osteoporose, deve se manter vigilante a qualquer coisa no chão, tipo tapetes pequenos e escorregadios… ou um gato. Deve-se avaliar o companheirismo e os benefícios psicológicos contra os riscos de tropeçar num animal e sofrer uma lesão. Uma yorkshire miniatura, parece ser um animal perfeito para uma pessoa com artrite. Ele pesa menos de 2,5 kg, que é o limite que alguém com artrite pode levantar sem problemas. As pessoas com artrite mantém as mãos flexíveis ao afagar seus animais com freqüência e um cachorro ou um gato, de um modo geral, deixarão que sejam esfregados durante um dia inteiro. A sensação dos dedos no pelo é muito relaxante.
D) TDAH e outras coisas que as crianças tem: animais e crianças, assim como pão e manteiga, constituem uma combinação natural. Isto é, se o bicho certo for escolhido para criança certa. Não se pode dar um chihuahua a uma criança extremamente agressiva ou um labrador derubando uma criança com paralisia cerebral. Para crianças com TDAH um cachorro grande e dócil pode ser mais tolerante com as brincadeiras ativas, em particular quando um menino joga seu corpo contra o animal. O contato físico acalma tanto o cachorro como a criança. Para crianças com problemas neurológicos brandos selecione um animal com temperamento calmo e controlado. Para crianças doentes ou fracas, um gato pode ser perfeito. Uma criança acamada ou numa cadeira de rodas pode se divertir muito ao puxar um barbante para um gatinho perseguir.
E) Câncer: os animais proporcionam significado e propósito à vida dos pacientes de câncer durante momentos muito difíceis. Os otimistas vivem mais do que os pessimistas. Quando o sistema imunológico está deprimido, por causa do câncer e da quimioterapia, você pode estimular as células que combatem naturalmente a doença se estiver feliz e tranqüilo… duas qualidades que os bichos de estimação trazem para a nossa vida. Para um paciente adulto com câncer, submetido a um tratamento rigoroso, um cachorro mais calmo, nos anos da maturidade, é uma escolha muito mais razoável do que um filhote de labrador, capaz de roer até aço. Um animal nervoso que exige uma atenção incessante, pode ser tão cansativo para o paciente de câncer quanto um cachorro que precisa andar muito. O bicho ideal seria umm animal que exija pouca atenção, como um gato que gosta de colo. Mas é preciso planejar para que alguém cuide do gato enquanto o dono esteja no hospital para tratamento ou se ausente durante um dia inteiro para uma sessão de quimioterapia.
F) Depressão: ele é um mágico profissional. Pode ajudar a sair de casa e se envolver com outras pessoas. Para as pessoas vulneráveis, a depressão causa sentimentos de desamparo e desesperança. O vínculo com animais ajuda os pacientes a conseguirem extraordinárias recuperações. Para as pessoas que preferem ficar em casa um periquito australiano ou um papagaio podem proporcionar um vínculo caseiro.
G) Diabetes: pode-se dar a isso o nome de sexto sentido, mas, independentemente da maneira como se chama o fato é que um cachorro pode saber quando a taxa de açúcar no sangue está baixa. São animais excepcionalmente sensíveis que percebem o fato de os donos suarem mais durante os episódios de hipoglicemia ou apresentarem tremores musculares. Com isso reagem aos padrões alterados de comportamento que acompanham a hipoglicemia.
H) Doença cardíaca: tem-se observado que a pressão baixa quando relaciona-se com animais. A relação com o bicho de estimação deixa o corpo num modo de hiper relaxamento, constituindo-se num medicamento natural para a pressão alta. Além disso estudos científicos tem demonstrado que a sobrevida de pessoas que sofreram infarto é maior quando em contato com animais de estimação. Deve-se ressaltar que o cão é o melhor para os cardíacos. Eles exigem exercícios regulares e moderados, o que é vital para um coração saudável.
I) Derrame: os derrames constituem a terceira principal causa de morte nos Estados Unidos e a principal causa de incapacidade física. O relacionamento bicho pessoa promove uma redução no estresse, um dos principais fatores de risco no derrame, bem como diminuem a pressão, a freqüência cardíaca e a ansiedade. Importante alertar para que alguém com severas limitações se beneficiará mais de um animal passivo, de baixa manutenção, ou seja, é preferível escutar um canto melodioso de um lindo canário do que lutar com um impetuoso pastor alemão.

7. Vínculo e antropomorfismo

É importante diferenciar vínculo de antropomofrismo. No primeiro quer-se aprofundar de forma não patológica o relacionamento e, para isso, precisa-se passar algum tempo com ele, respeitando suas características fisiológicas. No segundo procura-se atribuir uma forma humana aos animais. Por mais desculpável que isso possa parecer, assemelhar o cão ao ser humano é um erro biológico que pode revelar-se perigoso para o animal (Grandjean, 2001).
Respeitar o cão naquilo que ele contribui e representa para as pessoas não deve consistir em desenvolver uma abordagem antropomorfista para fazer dele, como se ouve muitas vezes “uma criança que só falta falar”. A biologia é tal qual ela quis a diversidade terrestre dos seres vivos, fazendo com que cada um deles seja o complemento dos outros, tendendo para um equilíbrio instável no qual o homem não deve alterar. Em conseqüência, este reflexo antropomorfista, deve ser abolido. Não respeitar o funcionamento biológico e fisiológico do cão e, conseqüentemente, suscetível de tornar-se perigoso para ele. Os melhores exemplos desta realidade podem ser analisados em relação a alimentação:
– O homem a cada refeição muda sem problemas sua alimentação… ora, se possuísse um tubo digestivo como o do cão, esta variação alimentar permanente causaria constantemente diarréias.
– O homem precisa de cozimento, sal, açúcar, aromas gustativos e da boa aparência do seu prato para lhe dar prazer, mas, se tivesse os mesmos sentidos do cão, apenas os aromas que exalam seriam necessários para apreciar completamente.
– O homem consome, há milênios, uma refeição tranqüilamente, sem o risco de tornar-se a presa de predadores selvagens, mas, se fosse um cão, a evolução teria ainda deixado reflexos de um consumo rápido incorporado nos genes de todo animal suscetível de sua alimentação ser roubada por um semelhante ou ser atacado por um predador.
O cão é, então, um cão, ainda que não agrade a todos, deve ser cuidado, bem tratado e respeitado como tal. Assim, de uma maneira global, o aparelho digestivo do homem representa 10% do seu peso corporal enquanto o do cão varia de 2,7 a 7% em função do tamanho. A partir daí, compreende-se melhor que seja mais fácil para o homem digerir elementos tão variados.
O antropomorfismo, muitas vezes exagerado, tal qual apresentado em alguns filmes, por exemplo, não somente é cientificamente inaceitável, como altamente nocivo, chegando até mesmo a reduzir a esperança de vida do animal.
COMENTÁRIOS

O mistério do relação homem animal jaz no fato de não nos inspirar ainda mais assombro e admiração do que inspira. Dentre mais de 4000 espécies de mamíferos na terra, apenas umas poucas dezenas se tornaram domesticadas e apenas duas abriram em massa as portas de nossos corações e casas. Os dados estatísticos mostram que cerca de seis residências em cada dez nos Estados Unidos, tem bichos de estimação, enquanto apenas três, em cada dez, tem crianças. Os animais são como nós, mas, ao mesmo tempo, muito diferentes. Em nossa simbiose, descobrimos que os animais são muitas vezes mais humanos do que os seres humanos, refletindo nossos melhores impulsos de humanidade. Não mentem e não enganam, tem uma lealdade total e um amor incondicional. Embora esses atributos sejam representativos do mundo dos bichos de estimação são bem poucos os humanos que os exibem. Por intermédio de nossos animais, temos uma maneira prática, confiável e rotineira de nos relacionar com a natureza, rompendo as correntes da humanidade e suas criações. Esse relacionamento, essa ligação afetuosa especial, o vínculo, nos proporciona um senso incomparável de união com a natureza; diz-nos que não estamos acima, mas que somos parte. Nossos cachorros e gatos permitem uma visão íntima e permanente da mente e do espírito de outros mamíferos, servindo como uma teia que os liga com a vastidão da natureza. E, no coração desse vínculo com a vida, esta o poder curativo simples e infalível.
Os bichos de estimação são totens dos valores que prezamos, um canal da ligação histórica entre os seres humanos e a natureza. Ajudam-nos a cultivar a consciência de que não estamos sozinhos neste mundo, mas unidos com todas as coisas vivas. Levam-nos para fora de nós mesmos, restabelecendo o nosso contato com o mundo em que vivemos. A necessidade que temos uns dos outros, em parte espiritual, em parte física, ajuda-nos a ser felizes e saudáveis. E respeitar o animal, com suas verdadeiras necessidades fisiológicas, biológicas e psicológicas nos fará viver em maior harmonia.

Fonte: http://www.sosanimal.com.br/informativo/exibir/?id=89

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